segunda-feira, 13 de julho de 2015

Dor

                                                 


     

É um privilégio ser psicoterapeuta! Nos deparamos com histórias humanas de muitos teores e cores. Separações bem vindas, outra nem tanto. Crescimento, saídas, soluções, convivência pacífica com problemas e dor. Dores de todos os quilates. E nós, desse lado da cadeira, também aprendemos que dor cura, que dá sentido, que enobrece, torna humilde, retempera.
Mas dia desses, ouvi uma história, longe do setting terapêutico.
Uma história de dor! E quero aqui dividir, porque não entendi.
É a história da Berê!

Berê nem nasceu; foi cuspida!
Não foi aguardada, amada, bem recebida.
Não teve enxovalzinho, nem padrinho, nem festinha...
Carinho? rs Tá de brincadeira?
Pois então, nasceu essa menina. Triste sorte ser menina.
Pais alcólatras; ambos!
Berê apanhou!
Apanhou porque era menina e porque não era.
Apanhou porque fazia e porque deixava de fazer.
Apanhava quando as notas eram baixas, mas quando eram altas também.
Apanhava se chorava, ou se ria, ou se se encolhia num canto.
Apanhava!
Apanhava!
Era sua obrigação buscar cachaça no boteco para os pais. E fiado.
Pequenina ainda. Pequenina mesmo; 4 aninhos. Isso é o que ela lembra.

Certa vez, disse um não quando a mãe lhe obrigou a ir ao boteco do vilarejo afastado de uma cidadezinha afastada de um Nordeste afastado.
E disse não, porque não gostava do que os homens que frequentavam o boteco lhe diziam e faziam.
E correu.
Maldita a hora!
O pai vinha chegando, e ouviu os gritos da mãe;
 – “Pega essa cachorra que disse que não vai buscar açúcar pra nóis!”
Era assim que chamavam a cachaça, e era assim que chamavam a menina.
E o pai pegou a cachorra. E o pai estava com a “cachorra” naquele dia.
E bateu!
Bateu!
Bateu muito! Mais que sempre!
E Berê fugiu.
Foi parar na casa de uma prima.
Casa?
Prostíbulo.
Mas ela veio a saber o nome bem depois. O nome, porque a função ela descobriu logo.
Escondeu-se debaixo da cama da prima o quanto deu, mas não deu sempre.

Esse pedaço vou pular.

Aos 12 anos cansou.
Fugiu de novo.
Foi pega pela polícia que em vista do seu estado a levou ao hospital.
Seu anus estava praticamente pra fora, e precisava ser operada.
Levada ao hospital, o ambiente a assustou e
Com medo fugiu de novo.
Lembra-se de ficar horas no meio do mato em elocubrações.
Sabia que se alguém viesse pra cima dela de novo iria matar, mas ao mesmo tempo pensava;
"Eu não quero matar. Não sou disso! Vou viver no mato! Se os macacos vivem, eu vou conseguir também".
Ela crê que tenha ficado ali umas 6 horas.

Morou na favela, morou no mato, morou no inferno.
Foi casada, descasada, casou-se novamente.
 Só estrupícios. Só abusadores, bêbados, cafajestes, gigolôs...

Vou pular de novo.

Sobreviveu.

Hoje costura pra fora, porque por dentro está toda remendada.
É  mãe carinhosa, não bebe, não fuma, não trafica ( embora pudesse ter sido doutorada na prática).
Trabalha!
Muito!
E me contou sua história.
E essa dor eu não entendo.
É muita dor. 
E Berê é doce. Diz que sempre foi.
Que quando assiste os programas do Animal Planet, sente que é uma girafa, que quando o leão resolve atacar, não há escapatória.

Muita dor!
Não entendo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Envelhecer




Envelhecer é natural.

E para envelhecer bem, é preciso algumas coisinhas;
Prestar atenção é uma das mais importantes.

Prestar atenção ao atravessar à rua!
Fundamental;

Às coisas importantes que se ouve porque são poucas as coisas que realmente valem ser ouvidas e guardadas. E se não prestamos atenção perdemos.
Porque perdemos muitas coisas;
Perdemos as chaves, a bolsa, o casaco, a carteira..
Ai Meu Deus, onde coloquei os óculos????
...e a paciência.

Prestar atenção por onde se anda, pois qualquer queda pode ser fatal a nossa qualidade de vida.
Prestar atenção se desligamos o gás, apagamos a vela, fechamos a porta, fechamos o carro, guardamos o cartão de crédito, se o tiramos da maquininha, se olhamos o total da fatura, pois o prejuízo pode ser imenso.

Prestar atenção ao que lemos, para que não gastemos nosso tempo com bobices, e ler acaba sendo um ritual; onde estão mesmo os óculos???

Não se pode mais comer qualquer coisa; é sabido que o metabolismo muda. E como!!!
 Não não como!
Não posso comer mais de tudo.

É preciso prestar atenção a si mesmo e ao outro.

Às mudanças, e respeitá-las.
O corpo muda, constante e obstinadamente.De um dia pro outro surge uma nova ruga, uma nova dificuldade, dores surgem, pelos migram. a memória trai. 

Ah! Os óculos...

Às esquisitices, e rir delas.

Onde estão os óculos????

Envelhecer não é fácil.
Inevitável, porém trabalhoso.
Não é pra qualquer um, alguns morrem no caminho, então é arriscado.

De repente podemos conquistar algo que sempre desejamos na infância; ficar invisível!
Mas quando queremos experimentar essa invisibilidade... o pé da cama, a escada, o banquinho, o tapete não deixam.

Envelhecer requer saúde; é preciso muita saúde pra lidar com as doenças.

Bom Humor nem se fale!
Se você não aprendeu ainda a rir de si próprio. treine!
Comece já!
Mesmo porque fazemos coisas muito engraçadas mesmo; trocamos nomes, datas, lugares, e se não for engraçado, será constrangedor. Se você não der aquela risadinha lá dentro, vai ficar aborrecido (a), E de aborrecimento em aborrecimento a velhice vai te abandonar, porque chega uma hora que ela vai!

A velhice não tolera os fracos!

Ah! Encontrei os óculos; na geladeira, junto com o telefone sem fio.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Convite ao mau humor

                                   
                                                       




                                          


Acordo, levanto, tomo meu café da manhã, raramente de mau humor.

Saio e já no elevador encontro gente falando mal da vida. Às vezes prefiro as escadas,não encontro ninguém, mas quando encontro algum vizinho colocando o lixo pra fora, ele também coloca seu lixo interior e fala mal da vida, do lixo, da escada...

O porteiro junto com o "Bom Dia!!!" me dá notícias ruins: " A senhora viu isso, viu aquilo, aquilo
outro?"

Sigo incólume a minha aula de Pilates. Maravilhosa! E o que as pessoas fazem, além dos exercícios?

Falam mal da vida; falam de doenças e violências, e sonhos ruins, do clima que está péssimo - qualquer que seja!

Volto, passo pela padaria, pelo açougue, pela costureira, dependendo da necessidade diária e sempre encontro alguém reclamando, me oferecendo um "Mau Dia", disfarçado no cumprimento.

Tento convencer do contrário. Mas quem olha a vida com maus olhos, como me verá?

E assim o dia segue seu curso; o médico, o dentista, a recepcionista falam mal de outros seres humanos, das contingências, do governo (aí até eu meto o pau - ninguém é de ferro!).

Difícil um sorriso.

Não posso ser catalogada como uma Poliana (ainda a leem?) que enxerga tudo através de óculos cor de rosa, mas acredito que ser feliz é exercício diário. Ao tomar meu café da manhã, muitas vezes estou com dores, o sono da noite não foi perfeito, há coisas pra pagarrrrrr. Mas procuro sentir o cheirinho do pão, o aconchego da cozinha limpa, a flor que eu mesma me dei no dia anterior, sentir os grãos do pão.

Converso, apesar do espanto dos meus filhos, comigo mesma, e respondo, e sorrio, e rio.

Vou pra vida com a alegria possível e apesar de toda adversidade, ninguém vai me convencer que a vida é ruim.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Silêncio


Psiuuuuu......

Quero falar do silêncio. Quero quebrar o silêncio que gira em torno do silêncio.
Quero silenciar conceitos, gritar que não quero!
Não, eu não quero gritar mais. Não é mais tempo de excessos.
Desde de Delphos não o é, mas teimamos, desobedecemos o oráculo, as leis, as regras, as normas.
Por que a enfermeira com o dedo indicador atravessa os lábios, e atravessa corredores de hospitais?
Necessário?
Por que o professor precisa pedir silêncio?
Não se está lá para ser ouvido?
Muitos não sabem, e não sabem que não sabem.
Por que o silêncio não pode fazer parte da festa, do dialogo, dos encontros, do namoro, do amor?
Por que não deixamos o silêncio presentificar e o interrompemos com frases tolas;
Nossa! Você viu aquilo?? Será que chove hoje? Quer água? Café? Algo?
Muitos não o suportam.
Por que chegar em casa e expulsá-lo?
Ele que ficou nos aguardando ali solitário o dia todo.
Ligamos a tv, o rádio, o celular, os cambau.
Ligamos qualquer coisa pra não nos ligarmos em nós.
Nossa carência não o suporta e muitos a cultivam.
Quero, como cantou Elis, o silêncio das línguas cansadas.
Muitas vezes acordo no meio da noite, não como Bilac para ouvir e entender estrelas, mas para ouvir o silêncio.
Quero essa magia. Não sempre, mas quero!
Quero mergulhar no silêncio e descobrir minhas verdades.
Quero que ele possa existir em minha vida junto com as conversas animadas, com o choro.com a música, porque como dizia Aldous Huxley; depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexpressível é a música.

sábado, 7 de março de 2015

Cinza X Rosa





Não gosto, não vi, não vou verificar pra ter minha opinião, pois já tenho!
É pra isso que servem as conversas, os bate papos ( eu já não sei mais o que tem e o que não tem hífen...).
Numa época em que tantos, tantas lutam pela integridade da mulher, há os aloprados, os sem noção, os equivocados que fazem exatamente o contrário.
E na contra mão desse caminho de buscar a defesa de um ser humano digno, surge esse filminho; 50 tons de cinza!
Faça-me o favor!!!
Você que é mulher: Pense! Reflita!
Pagar pra ver uma mulher naquelas condições??!
E eles ainda sugerem que haverá o número 2 ( acho sugestivo...)
Tanto se caminhou para agora, ver mulheres sentadas confortavelmente instaladas em salas de cinema assistindo novamente a mulher se curvar, se submeter, ser vilipendiada. E...Recomendar!
Parando!!!
Há anos que aproveito essa data para minha "Não Comemoração".
Co memorar. Eu que sou amiga das palavras, lembro que comemorar é memorar junto.
Mas lembrar juntas de quê?
Funk. Big Brother. etc, etc, etc...
Poucas, pouquíssimas conquistas.
E agora isso?
Não dá!
Tomara que nó próximo ano eu me reveja! 
Tomara que esse cinza seja tingido de rosa choque ( aquele da Rita Lee -
Viva Rita Lee - porque algum viva eu preciso dar.)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Amar ao Próximo como a Si mesmo.


                        





Mestre Jesus nos deixou um ensinamento, um conselho, uma orientação; uma Lei
                                    Ama a teu próximo como a ti mesmo!
A princípio nos parecer fácil, como muitas coisas que nos parecem simples à primeira olhadela.
Não é!
Amar ao próximo como a si mesmo é primeiro amar a si mesmo, já que esse simesmo de que nos fala Jesus é referência.
E aí começa a complicação...
Amar a mim quando cresço ouvindo que isso é egoísmo?
Amar a mim quando soa autismo nessa sociedade patologicamente envolvida com a neurose?
Amar a mim mesmo quando erro, quando não sou modelo, quando não gabarito, quando não correspondo a anseios, vontades, desejos?
Amar a mim quando erro e às vezes, por mais que me ensinem, aconselhem, orientem, eu volto a errar o mesmo erro?
Amar a mim quando não me amam, ou até por causa disso mesmo?
Amar a mim quando nem sei de mim?
Quando fugi de mim, me rejeitei e nem sei onde me encontrar mais?
Amar a mim mesmo é um exercício intenso, constante, sutil, desafiador e não uma atitude natural.
Aliás natural, mas a sociedade destrói a Natureza ao invés de interagir com ela, como seria recomendável.
E, se essa primeira parte não é simples, imagine a segunda: Amar ao Próximo!
Quem é esse próximo?
O que está ao lado, no mesmo sítio, no mesmo time, do mesmo sangue?
Bom... se for esse já é bem difícil, sabemos!
Evoca nossas habilidades, nossos instrumentos, nossas emoções e sentimentos mais profundos que necessitam de afinação.
Mas, e se o Mestre quis referir-se ao próximo do momento?
Ao caixa mal humorado do supermercado?
Ao vizinho que grita?
À tia intrometida?
Ao filho que afronta?
À mãe que não me compreende?
Ao namorado que mente e machuca?
À amiga que nos negligencia?
Ao motorista que nos fecha?
Hã?
Puta treino!
Puta exercício!
Puta desafio!
Mas Jesus disse que Toda Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos, e que eles são os maiores.
Então?
Então? Bora exercitar, cara!

sábado, 20 de dezembro de 2014

Feliz Natal


Tenho um espírito analítico que meu signo revela; aquariana!
Usando-o então é que questiono uma musiquinha bonitinha que todos os anos ouço nessa época de Natal, acho que todos conhecem:
"Quero ver você não chorar", começa ela.
Como assim, não chorar?
E o que faço com a lágrima que queima, que teima, que escorre, que interfere?
Ignoro?
"Não olhar pra trás", continua ela.
E novamente inquiro; - não olhar  para o retrovisor enquanto dirijo a minha vida?
Viver olhando o passado, realmente não é recomendável, mas uma olhadela ou outra é da Natureza,
ou ela não teria me dotado de memória.
"Nem se arrepender do que faz", num convite à psicopatia?
Que a culpa estagna, não há dúvidas. Paralisa. Nos enche de cobranças;  de devias e deverias.
Aliás tenho uma implicância com esse tempo verbal: futuro do pretérito. Pode?
Mas que o arrependimento é saudável, eu não tenho dúvidas.
Aquele "ops, foi mal", é bom. Nos faz rever pontos, conceitos, atitudes.
Reconhecer um equívoco, e percebê-lo como tal corrige.
Alguém já disse; " arrepende-te e vai!
Isso! Isso sim!
"Quero ver uma flor crescer" segue a musiquinha.
Ahhhhh!!!! Eu quero ver muitas, e árvores, e florestas, e a Mata Atlântica preservada, e os jardins por onde ando, e sempre que possível lutarei por isso.
" Mas se a dor nascer, você resistir e sorrir".
Sorrir?
Com dor?
Desrespeitando-a?
Dor merece respeito. Atenção. Cuidado.
Não se empurra a dor pra debaixo do tapete da vida.
Dor é sintoma que precisa ser tratado, curado.
Criar resiliência, substância, consistência, prontidão é outra história.
Todos queremos crescer, e sabemos que crescer dói.
"Se você pode ser assim, bem melhor assim eu vou ser".
No! Eu sou eu, vivo o meu processo, e você aí vive o seu. Certo?
"Se o Natal existe, e ninguém é triste, e no mundo é sempre amor".
Ahhhhhh! Mundo ideal e cruel que nos escancara vicissitudes, feridas, mazelas, incompreensões...
Não! Não é sempre amor, mas dentro de cada um de nós, ele merece ser cultivado, cultuado, nutrido.
E comemoramos o nascimento do amor.
Que Cristo nasça, renasça, cresça dentro dos nossos corações!
"Bom Natal, um Feliz Natal muito amor e paz pra você. Pra vocêêê!!!!